Conto de Halloween

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Alice observava a estrada repleta de lama. Havia escolhido um péssimo dia para voltar à sua cidade natal. Chovia muito, e ela se perguntava se conseguiria chegar a seu destino.

Ela olha para o pequeno calendário que estava a sua frente, alternando entre observá-lo e prestar atenção na estrada. Ela se distraiu ao perceber que dia era hoje: “31 de Outubro. Halloween”, ela pensou. Apesar de não acreditar em superstições, Alice assustou-se. As nuvens estavam próximas demais umas das outras, de modo que o dia parecia terrivelmente com a noite.

De repente, tirando Alice de seus devaneios, alguma espécie de animal atravessou o caminho da jovem. A princípio ela julgou ser um veado, ou algo do tipo, mas não teve tempo para pensar: Freou o carro bruscamente, que virou para o lado batendo de forma incontrolável numa árvore.

Ela havia acordado. Seus olhos estavam pesados, mas ainda assim ela conseguia enxergar. Estava dentro do carro, virado próximo a uma árvore. Olhou para o lado, precisava sair dali. Já tinha visto o suficiente nos filmes para saber que quando a vítima acordava o carro explodia.

Alice, com muito esforço, conseguiu se desprender do cinto de segurança. Passou as mãos sobre a testa, estava com um misto de sangue e suor. Após andar por alguns minutos a fim de pedir ajuda, ela notou algo estranho: Alice não conhecia o lugar onde estava. Embora tenha passado por aquela estrada umas vinte vezes em toda sua vida, ela não reconheceu a floresta onde estava. Assustada, andou mais um pouco, até que notou uma placa.

Aproximou-se dela, e viu que estava escrito em letras brancas e legíveis: BEM-VINDA À CIDADE DE VIGILAND. POPULAÇÃO: 100 HABITANTES. De início ela estranhou. Nunca havia ouvido falar daquela cidade, mas como estava completamente perdida e no meio do nada, resolveu continuar andando, a fim de pedir ajuda na tal cidade.

Alice andou bastante. Viu que seu esforço valeu à pena quando pôde notar as imensas casas (a maioria mansões) que rodeavam Vigiland. Algumas lojas de conveniências estavam fechadas, e a cidade parecia antiga. Ela aproximou-se, e começou a desconfiar quando viu que ninguém, absolutamente ninguém, estava na cidade. Nenhum dono de lojas, nenhum habitante, nenhum morador caminhando nas ruas. Tudo estava vazio e silencioso.

De repente ela notou uma mulher se aproximando, com uma pequena garota loira perto dela. Concluiu que a menina era sua filha. “Até que enfim achei gente por aqui!”, Alice pensou.

— Ei, senhora, poderia me dizer onde posso encontrar um hospital por aqui? — Alice perguntou, mas a mulher permaneceu calada. — Senhora?

A senhora continuou em silêncio, e andava como se não houvesse escutado a garota bem a sua frente. Alice começou a se irritar, então resolveu tomar satisfações com a mulher.

— Senhora, você poderia me dar uma informação? — Alice tocou a senhora, a fim de recobrar a atenção dela, mas esta puxou o braço como se tivesse sido tocada por um assassino.

— O que diabos você quer?! Não vê que estou ocupada?! — a mulher gritou quase chorando, de modo que suas feições, antes delicadas e despreocupadas, agora estavam repletas de rugas e raiva.

— Me desculpe. — Alice implorou. — Eu... Eu vim a essa cidade agora, mas não estou entendendo? Onde está todo mundo?

— É Halloween. — a garota loira se manifestou. Ela usava um vestido branco com fitas vermelhas, e possuía olhos azuis hipnotizantes. — Quando é Halloween, ele traz mais gente pra cá.

— Ele? — Alice perguntou.

— Ora, cale-se menina! — disse a mulher. — Eu não sei de nada! Minha filha também não!

A senhora foi embora, deixando Alice falando sozinha. Ela ficou ali, fitando a cidade no meio do nada, até que notou um mercado. Correu para lá, na esperança de encontrar alguém.

Quando chegou, Alice percebeu que não havia ninguém ali. Aproximou-se, e viu um calendário empoeirado sobre um balcão. Olhou para as datas, e viu que marcava 31 de Outubro de 1935. Ela se afastou. Notou um barulho vindo do fundo do mercado. Andou até lá, pensando que encontraria alguém para pedir ajuda, e de fato encontrou. Ela observou um homem de costas, com roupas completamente pretas. Ele estava com um facão na mão, cortando algo que parecia ser uma carne dentro de uma pia imunda. Quanto mais ele cortava, mais sangue espirrava.

Alice tremeu quando notou o que era, de fato, a carne que o homem estava “cortando”. Não era carne bovina, nem suína. Era carne humana. O homem estava cortando furiosamente uma pessoa. Ela gritou o mais alto que pôde, mas o homem não pareceu se preocupar. Lentamente, o ser de preto se virou. Quando Alice viu o seu rosto, tornou a gritar novamente, lágrimas caindo de seus olhos: A face do homem era bizarra. Seus olhos estavam cortados sob a forma de um triângulo, assim como seu nariz. Sua boca possuía uma forma estranha, como se estivesse sido cortada terrivelmente. Ele não possuía dentes, apenas algumas gotas de sangue escorriam sob seus lábios pontiagudos mutilados, semelhantes aos de uma cabeça de abóbora.

Alice correu o mais rápido que achou que poderia correr, mas de repente ela não estava mais num mercado. Estava numa casa empoeirada e repleta de teias espalhadas pelo chão. Sob os cantos, estavam grandes quadros bizarros, repletos de fotos de famílias, com as faces idênticas a do homem que ela viu há alguns minutos atrás.

Ela subiu as escadas desesperadas, gritando e chorando copiosamente, quando achou uma porta de um quarto velho. Trancou-se lá dentro, esperando que o homem não a achasse. Foi quando viu duas crianças próximas a janela do quarto, observando a cidade. Alice tremeu, e as crianças se viraram para ela. Como esperado, elas possuíam a face deformada, com as mesmas mutilações que vira antes.

— Não precisa ter medo. — uma das crianças disse. — Você foi a escolhida.

— Não chore, não chore... — a outra criança se aproximou de Alice, tocando no rosto da jovem com as suas mãos velhas e estranhamente assustadoras para uma criança. — Você deveria estar feliz, já que vai nos acompanhar hoje.

— Me solta! Me solta! — Alice chorou. — O que está acontecendo? Eu quero ir embora!

Ela saiu do quarto, se deparando com a menina loira que vira há algum tempo. Porém, a garota não tinha a face deformada como as das pessoas que vira antes. O rosto da loira continuava o mesmo, sereno como sempre fora.

— Você precisa me ajudar, precisa me explicar o que está acontecendo! — Alice disse a menina, exigindo uma resposta. — Precisa me explicar!

— Ora, mas não está óbvio? — a menina loira disse. — Não percebe que tudo isso é apenas uma travessura de Halloween? Gostosuras ou Travessuras, Alice?

— O quê?! Como sabe meu nome? — Alice desconfiou, olhando para os lados na esperança de esconder-se em algum lugar.

— Todos sabem Alice. Você foi a escolhida deste ano.

— Escolhida? — Alice não aguentava mais chorar, acreditava que não possuía mais lágrimas. — Escolhida para quê?

— Para ter sua alma roubada por mim! — a garotinha inocente rasgou com todas as suas forças a pele de seu corpo, como se ela fosse uma fantasia. De dentro do corpo, saiu o assassino mutilador que ela vira no mercado, a face cortada e pingando sangue lentamente.

— Por favor, por favor! — Alice jogou-se no chão, estava perdendo suas forças. — Não! Por favor, não me mate, eu quero viver!

— Viver? — o homem com o rosto de cabeça de abóbora finalmente disse algo. Ele possuía a voz ruidosa, e falava como se sua garganta estivesse sendo cortada. — Ora, não percebe sua tola?! Você não poderá viver! Porque você já está morta!

Alice se calou. Morta? Como poderia estar morta? Ela estava ali, naquele momento, implorando pela sua vida. Não poderia estar morta? Poderia?

— Isso é mentira! Por favor, me deixe ir!

— Deixe de gritar, menina irritante! — o homem parecia estar sempre sorrindo por conta de sua boca. — Você morreu naquele acidente de carro, há duas horas! Não lembra? Isso com quem estou conversando é apenas sua alma!

— É mentira! — Alice gritou, não poderia acreditar. Era jovem e possuía um futuro inteiro pela frente, não deveria estar morta.

— Não, não é mentira! Você há poucos minutos me perguntou por que você era a escolhida, e eu vou te explicar o porquê! Todo Halloween eu atraio uma alma para aqui, Alice! Essa é a minha cidade, este é o meu mundo! Eu prendo aqui nesta cidade, todas as almas que posso para não me sentir sozinho! É por isso que eu adoro o Halloween, Alice! Porque é nele que eu posso prender uma alma aqui, e adivinha? Você foi a alma escolhida deste Halloween! Se sinta honrada!

Alice observava tudo horrorizada. Então era verdade? Ela estava morta? Sua alma estaria presa naquela cidade com aquele maníaco? Todas as perguntas lhe davam vontade de chorar cada vez mais.

O assassino voltou a falar:

— Está vendo meu rosto, Alice? É assim que você vai ficar daqui a algumas horas!

— Não, não! Por favor! — Ela implorava em meio a lágrimas, virando o rosto, mas já era tarde demais. Em breve ela estaria presa naquela cidade, como todos os outros. Ela era a alma escolhida do Halloween. E não havia como fugir. Nunca.

2 comentários:

  1. UAU amei o conto! Tão perfeito, cara você escreve muito bem!
    Parabéns
    scrawledmemories.blogspot.com

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